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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cordel de Cora Coralina





As salas de leitura das escolas municipais do Rio de Janeiro estão recebendo um exemplar da mais recente edição de “Meu livro de cordel”, de autoria da poeta Cora Coralina, já atualizada conforme o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Publicado pela Global Editora e Distribuidora, o livro baseia-se na edição de 1976, de circulação restrita ao estado de Goiás, onde nasceu Cora Coralina, que, ainda em vida, preparou os originais para esta edição, retirando alguns textos em prosa e acrescentando poemas inéditos, conforme consta da ficha catalográfica do livro.



Na orelha da contracapa, há um texto do poeta Carlos Drummond de Andrade, escrito em 14 de julho de 1979, daqui da cidade do Rio de Janeiro.

“Cora Coralina

Não tendo o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos. Admiro e amo você como a alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais. Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do seu Goiás! Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina.

Todo o carinho, toda a admiração do seu

Carlos Drummond de Andrade”

“A obra de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), Cora Coralina, é um dos marcos recentes de nossa literatura.

Nascida em Goiás, em 1889, Cora teve uma trajetória literária peculiar. Embora escrevesse desde moça, tinha 76 anos quando seu primeiro livro foi publicado, e quase noventa quando sua obra chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade – responsável por sua apresentação ao mercado nacional. Desde então, sua literatura vem conquistando crítica e público.



Cora Coralina não se filiou a nenhuma corrente literária. Com um estilo pessoal, foi poeta e uma grande contadora de histórias e coisas de sua terra. O cotidiano, os causos, a velha Goiás, as inquietações humanas são temas constantes em sua obra, considerada por vários autores um registro histórico-social do século XX.”

Eu Voltarei

Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei...

Cora Coralina

Um comentário:

  1. Cora Coralina ,mesmo já partido em matéria,em alma permaneceras eternamente em versos , e amada por todos por sua delicadeza e simplicidade de uma mulher idealizada em comunicar seu pensamento , seu cotidiano , sua trajetória e desejos ...
    Se viver 200 anos nunca teremos a expressão literária da humildade para com o seu próximo e nas suas entrelinhas o amor profundo pela poesia. Sou como Cora Coralina ,se eu pudesse ,mandaria a saudade ir embora e pediria de joelhos para alegria voltar e com ternura lhe abraçaria e nunca mais deixaria ela partir...
    Como é bom ser feliz!

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